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Grupo de estudo da UCPel estimula debate sobre violência
Grupo de estudo da UCPel estimula debate sobre violência
A força dos movimentos sociais, tanto no mundo acadêmico quanto na política, possibilitou o avanço de determinados debates. Na Universidade Católica de Pelotas (UCPel), temáticas envolvendo Violência, Relações Étnico-Raciais, Fronteiras, Gênero, Classe, Imigração, Segurança Pública, Multiculturalismo, Interculturalidade e Juventude são discutidas e pesquisadas no Laboratório de Estudos Psicossociais Cidades Seguras e Direitos Humanos do Programa de Pós-Graduação em Política Social e Direitos Humanos (LEPS/PPGPSDH). 

Tendo a violência, desde a simbólica até a física, como eixo central, o grupo de estudo se dedica a pesquisa e produção de conteúdo sobre temas ainda pouco explorados na sociedade. De acordo com a coordenadora do LEPS, professora Márcia Esteves de Calazans, a questão das relações étnico-raciais, por exemplo, é uma categoria recente dentro do espaço acadêmico, sendo que em alguns lugares ela nem foi incorporada ainda. 

Essa resistência, conforme a professora do curso de Serviço Social da UCPel e integrante do LEPS, Carla Ávila, é ainda maior no Sul do país. Pela tradição positivista, a invisibilidade dos movimentos sociais e, automaticamente, dos temas tratados por eles é muito forte. “Na tradição gaúcha, excluem o povo indígena e o povo negro, além da questão separatista que envolve a temática de gênero”. 

Na visão de Carla, o Rio Grande do Sul não é identificado como um estado negro, sendo que Pelotas foi fundada a partir do trabalho escravo. “Olhamos a casa grande e esquecemos a senzala”. Para ela, existe uma resistência para tratar dessas questões, que ficam a margem da produção acadêmica e o grupo se mostra importante nesse aspecto. 

Já no Nordeste, região onde nasceu o grupo, esses temas são fortemente explorados nas universidades. Segundo Márcia, a pressão para que isso ocorra vem de fora - de movimentos sociais e de alunos que, na maioria, tiveram acesso ao meio acadêmico através de uma política construída nos últimos 10 anos. Para ela, a inserção desses alunos, historicamente excluídos, foi estabelecendo uma nova cultura.

De acordo com as professoras, as ações afirmativas - atos ou medidas especiais e temporárias que visam eliminar desigualdades historicamente acumuladas - propiciaram esse debate, tanto para as universidades federais como para as comunitárias. Carla lembra que em 2006, quando finalizou a graduação, a questão racial era raramente discutida. Após 2012, essa dimensão passou a ser vista e o debate sobre raça, gênero e sexualidade foi inserido na academia.

A partir disso, o cenário da produção de conhecimento mudou em determinados lugares. A pesquisa passou a ser vista através do meio em que se desenvolve e não mais da teoria aplicada. A tradição histórica de desenvolver os estudos de forma dedutiva – sem observar o campo – foi sendo desconstruída. 

Mas, conforme a coordenadora do LEPS, o esforço para fugir do modelo tradicional, baseado na herança eurocêntrica, é constante. “Não falamos disso em sociedade e nossas formações foram imersas nesses espaços tradicionais. Assim como as temáticas, os autores latino-americanos e negros são excluídos do modelo academicista europeu”, enfatizou.

Origem e estrutura

O grupo, originado na Bahia, começou a operar em uma pesquisa que levou cerca de cinco anos para se desenvolver e gera frutos até hoje. Por trabalhar com um campo multidisciplinar, contava com a participação de pesquisadores de diversas áreas, como serviço social, psicologia, pedagogia, educação física, antropologia, etc. Foi idealizado e constituído com alguns critérios, entre eles a identidade da negritude. 

De 2012 a 2017 o grupo se concentrou na Bahia, onde mantém membros até hoje. Atualmente, está inserido em uma grande rede latino-americana. Na UCPel, o LEPS chegou ao Programa de Pós-Graduação em maio de 2017, quando a professora Márcia retornou de Salvador. Entre as integrantes, diferentes estágios acadêmicos estão representados - desde a graduação até o pós-doutorado. Essa integração, segundo elas, enriquece os trabalhos através da troca de conhecimentos.

Entre as atividades previstas para 2018 estão o evento Percurso – uma série de palestras que vai discutir as pluralidades da sociedade e a integração de culturas. Os encontros são mensais e abertos à comunidade. Em junho, a atividade vai discutir a questão de gênero, uma dimensão que ainda precisa ser muito debatida, visto que as estatísticas mostram a característica de sociedade patriarcal ainda muito presente. 

Já para o segundo semestre de 2018 estão programados dois seminários: um regional, que ocorrerá na UCPel, e um internacional, em Salvador.

Projetos em desenvolvimento

Todos os projetos vinculados ao LEPS estão dentro da pesquisa guarda-chuva intitulada Multiculturalismo e Interculturalidade em Fronteiras, pensando na concepção de fronteiras além da geográfica. A partir desse tema central, as pesquisadoras desenvolvem os projetos, que exploram de alguma forma a questão da exclusão, seja por gênero, classe, relações étnico-raciais, sexualidade, etc. Conforme Márcia, em comum entre eles a violência. “A exclusão é uma forma de violência”. 

Abordando a temática Fronteiras, o projeto da mestranda Emília da Silva Piñeiro trata das mulheres imigrantes da Palestina que residem atualmente na fronteira Brasil/Uruguai. De acordo com ela, a pesquisa trabalha com as questões de gênero e do multiculturalismo na fronteira e busca mostrar o motivo da dispersão dessas mulheres e o porquê se estabeleceram no Chuí. 

O projeto de Bruna Lucas Caumo, também mestranda, trata sobre políticas públicas para a população LGBT, tendo como foco a política nacional de saúde integral para a população LGBT de Rio Grande. A pesquisa contempla a análise dos planos plurianuais durante as gestões de 2009 e 2017. 

Já a professora da UCPel e doutoranda, Carla Ávila, trabalha a questão das cotas, principalmente no que tange a dimensão das fraudes e dos processos de judicialização dentro da categoria negro - que contempla pretos e pardos. Ainda em fase de construção, o projeto busca debater a questão da mestiçagem, não só no Brasil, mas na América Latina. 

Com objetivo um pouco diferente das colegas, a graduanda em psicologia, Andressa Cezimbra Reichow, viu no grupo a oportunidade de complementar a graduação, suprindo possíveis lacunas no aprendizado. Bruna, que atualmente está na condição de voluntária no grupo, busca compreender, a partir de questões sociais, ferramentas da psicologia e de que forma podem ser aplicadas.

E, por fim, o projeto de pós-doutorado da professora colombiana Ana Felisa Hurtado Guerrero, que dialoga com uma pesquisa iniciada por Márcia em 2012 e trata sobre o genocídio de jovens negros. A partir do mapeamento dos dados na Colômbia, uma nova discussão será aprofundada. Ao unir os resultados obtidos pela coordenadora do LEPS em Salvador e por Ana Felisa, uma análise sobre o genocídio dos jovens negros no Brasil/Colômbia será realizada. A professora colombiana também está na condição de voluntária no LEPS.

Redação: Manuelle Motta


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